sábado, 28 de novembro de 2015

A GRANDE MENTIRA DA VALE/BHP/SAMARCO

A Samarco informa que, devido à manutenção da ordem de bloqueio de suas contas bancárias por pedido em ação judicial proposta pelo Ministério Público de Minas Gerais em Mariana, e autorizado pelo juízo desta cidade, solicitou adiamento do prazo para efetuar o depósito relacionado ao Termo de Compromisso firmado com este Ministério e o Ministério Público Federal. Assim como o depósito, a empresa também não poderá cumprir os compromissos financeiros com seus funcionários e fornecedores. A Samarco informa que já solicitou liberação ao juízo de Mariana e continua tomando todas as medidas legais cabíveis para o desbloqueio das contas e, tão logo a situação seja regularizada, todos os seus compromissos financeiros serão cumpridos. A empresa se desculpa pelo transtorno causado, principalmente, a seus funcionários e fornecedores, e reforça que as medidas para a regularização dos pagamentos, infelizmente, não estão sob sua alçada.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

MAIS UMA VITIMA DO CRÍME DA VALE/SAMARCO É IDENTIFICADA

Mateus Márcio Fernandes era funcionário de terceirizada da mineradora.
Para irmã, reconhecimento dos restos mortais traz alívio. 

Mateus Fernandes está desaparecido desde o rompimento das barragens da Samarco  (Foto: Raquel Freitas/G1)


A família de Mateus Márcio Fernandes, um dos trabalhadores que desapareceram após o rompimento da barragem da Samarco, cujas donas são a Vale e a BHP, disse que o corpo do mecânico foi reconhecido nesta quinta-feira (25). Segundo a Polícia Civil, o trabalhador, de 29 anos, é a nona vítima da tragédia em Mariana, na Região Central de Minas Gerais.

O mecânico era funcionário da empresa Manserv, terceirizada da mineradora. Segundo o delegado regional Rodrigo Bustamante, o corpo foi resgatado nesta madrugada em Ponte do Gama. Para a irmã de Mateus, Jaqueline Aparecida Fernandes, de 31 anos, a identificação traz alívio.

Mateus estava no local do rompimento, quando o mar de lama represado começou a destruir tudo o que havia pela frente, no dia 5 de novembro. Segundo Jaqueline, a família reconheceu o mecânico graças a uma tornozeleira e pela arcada dentária.

Ele era morador de Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto. Em entrevista no último dia 13, Jaqueline disse que, apesar da confiança em Deus, acreditava que encontrar o irmão vivo não era uma possibilidade. Ela também afirmou que desejava dar um enterro digno a Mateus.

Antes de mecânico, foram reconhecidos os corpos de seis funcionários de empresas terceirizadas – Claudio Fiuza, Sileno Narkievicius de Lima, Waldemir Aparecido Leandro, Marcos Xavier, Marcos Aurélio Pereira Mora e Samuel Vieira Albino – e de duas crianças moradoras de Bento Rodrigues – Emanuely Vitória e Thiago Damasceno Santos.

Outros quatro corpos, que estão no Instituto Médico-Legal (IML) de Belo Horizonte, seguem sem identificação e, por isso, ainda não são considerados pelas autoridades como de vítimas do rompimento da barragem. Dez pessoas ainda estão desaparecidas.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Vale coloca 200 mil pessoas em risco em Parauapebas , vivem quase 200 mil pessoas (189 mil pelo IBGE em 2015). Se a barragem do Gelado romper, como em Mariana, será uma catástrofe

Quem sabe a próxima oportunidade para vampiros de desastres ecológicos será em Parauapebas, centro do projeto Carajás




Quanto vale as vidas abruptamente transformadas, sem a possibilidade de alternativa em decorrência da violência do desastre?

Tragédias ecológicas de proporções catastróficas, logo quando ocorrem, rompem o silêncio da mídia sobre situações de riscos que estavam marginalizadas e dão grande atenção aos espetáculos – sensacionalizando os aspectos macabros.
No caso da cobertura da catástrofe em Mariana, essa atenção da mídia tem sido parcial, baseada em informações prestadas pela Samarco, que se tornou inclusive a "sede" do governo de Minas para uma coletiva de imprensa.
A culpa da catástrofe, um crime socioecológico, tem sido naturalizada, transferida para a natureza, enquanto as responsabilidades de empresas e governos são diluídas em meio ao caos e desespero.
A urgência nas respostas para salvar vidas – humanas e não humanas – logo transforma-se em um emergencialismo. Planos preventivos que deveriam ter sido realizados e não passam a ser cobrados, como agora em Mariana, com decisão judicial para que um plano seja apresentado em cinco dias, ou que seja pago um salário mínimo para as famílias atingidas. Tudo curto e rápido, como panos quentes para aliviar.
Respostas rápidas são necessárias para aliviar o sofrimento imediato. No entanto, podem servir apenas para dar conta de uma pressão inicial do espetáculo do desastre, e deixar para aqueles que são mais atingidos um longo e perene sofrimento.
O desastre industrial que aconteceu em Bhopal, na Índia, em 1984, e Chernobyl, em 1986, não ficaram no passado, produzindo efeitos terríveis da contaminação ao longo do tempo para milhares de pessoas e para o ambiente.
O desastre em Mariana provocado pela mineradora Samarco, da Vale e da australiana BHP, também terá uma longa duração no tempo, seja no ambiente, seja na vida das pessoas. A resiliência, que é a capacidade de reconstrução e recuperação do trauma, pode ser impossível.
Em um relatório de 2011, a ONU afirma: "Não pode haver dúvida alguma de que a redução da vulnerabilidade aos riscos é infinitamente preferível à luta contra o sofrimento humano e as consequências econômicas das crises".
Essa perspectiva tem sido pesquisada com foco na redução dos custos e mensuração técnica e operacional da vulnerabilidade, mais do que em questões de cidadania, qualidade de vida, segurança.
A tragédia em Mariana é social e ambiental, pessoas e meio ambiente foram expostos a um risco absurdo. E no que se refere à vulnerabilidade, que é a exposição ao risco, a suscetibilidade ao impacto, Mariana, palco de um desastre, pode ser um grande alerta para outras situações.
Enquanto ainda se procuram os corpos, surge a questão de quem paga por isso e como esse pagamento é feito.
Pela lei brasileira, a priori, as responsabilidades desse crime socioecológico (que deve ser investigado) recaem sobre a Vale e a BHP em razão do princípio do poluidor-pagador instituído pela Lei nº 6.983 de 1981: "É o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade".
Tal percepção atingiu os investidores dessas duas grandes empresas e as ações da BHP despencaram 7% após a catástrofe. A BHP escreveu em um e-mail ao Wall Street Journalafirmando que não tem nada a ver com a catástrofe e que a Samarco é "inteiramente responsável" e lavou suas mãos na lama.
A Vale também empurrou para a Samarco, igualmente como se não tivesse nada a ver com isso, apenas "apoiando" a empresa, disponibilizando recursos para "auxiliar a Samarco". Um executivo da Votorantim, ex-executivo da Vale, Tito Martins, disse ao Valor que depois de Mariana, "tudo vai ficar mais difícil e mais caro de se fazer no País".
Nessa visão, podem surgir alguns obstáculos a mais para serem superados (ou destruídos), e um pouco de dinheiro a ser pago – que depois pode vir a ser recuperado, por exemplo, com a redução de "custos" de "direitos" trabalhistas.
Acontece que os danos socioecológicos poucas vezes podem ser reduzidos a seu valor monetário. Quanto "Vale" um Rio Doce? Quanto "Vale" as vidas do menino Thiago, da menina Emanuelly, de Valdemir, que deixou esposa e três filhos, das inúmeras pessoas mortas? E quanto "Vale" as vidas abruptamente transformadas, sem a possibilidade de alternativa em decorrência da violência do desastre?
A catástrofe provocada pelas mineradoras Vale e BHP vai gerar muitos conflitos socioecológicos, longos no tempo e no espaço, e como coloca o economista ecológico Joan Martinez Alier: conflitos em torno dos "valores".
Essas empresas e o Estado – seja o governo de Minas ou o federal, ou o Judiciário – vão tentar impor valores de dinheiro para aquelas pessoas cujas perdas, de vidas ou de possibilidades de existência por suas relações com o ambiente, são sentidas muito além do que o dinheiro pode comprar.
E em torno dos valores monetários, o desastre ambiental, para alguns, como o capital da grande mineração, é uma grande oportunidade de acumular. Já para muitos, para os pobres, representam longos anos de muito sofrimento e violência.
Na forma como são feitos hoje – e pelos novos projetos do governo federal, a tendência é piorar –, os estudos de impacto ambiental tentam reduzir tudo a algum valor que o dinheiro pode pagar. Isso significa uma violência tremenda para os mais pobres de dinheiro, e uma vantagem descomunal para o capital na Vale, na BHP, ou mesmo em Belo Monte...
Como essas empresas ricas têm mais dinheiro, podem comprar mais barato a vida e o ambiente dos pobres, protegidas pela violência colonial do Estado. Não há nenhuma outra solução possível para romper esse ciclo, além da básica consulta direta: aqueles afetados devem ser ouvidos, e ao serem consultados de forma informada, devem ter o direito de, livremente, decidir sobre o futuro de suas vidas e sobre o projeto em si.
Ainda assim, essa consulta, elemento fundamental da cidadania que não consta nos relatórios de impacto até agora, apenas poderia garantir o direito de algumas pessoas, já que as futuras gerações e a natureza só podem ser "consultadas", em tese, por algum tipo de representação.
Mineração, agronegócio, barramentos de rios e outros são projetos de "desenvolvimento" autoritário, chamados por autores latino-americanos, como Maristela Svampa, Alberto Acosto, Eduardo Gudynas, de "extrativismos" (ou "neoextrativismo" dentro do quadro populista): algo como uma síndrome de extrair massivamente e mandar para longe e receber um pouco por isso, que fica concentrado em poucas mãos.
Extraem massivamente recursos naturais para exportação, deixando para trás um buraco e um rastro de saque, um ambiente destruído junto de vidas humanas e não humanas.
Essa destruição é motivo para ganho e acumulação, uma oportunidade para expansão e circulação do capital. É difícil imaginar que a Vale ou a BHP vão pagar o que deveriam se os cálculos fossem realmente feitos numa perspectiva ampla de diálogo com todos aqueles e aquelas que foram atingidos e atingidas.
Se os custos não fossem externalizados, colocados para fora, empurrados para os mais fracos ou para o ambiente comum, como o rio. Ambiente comum, ou bem comum, dizem respeito a todos e todas, e não podem ser cercados, privatizados, como tentam as mineradoras.
O ar, as comunidades, os rios, as florestas, são comuns, e não podem se tornar propriedades cercadas pelas mineradoras para transferir para o comum os custos dos desastres provocados por suas atividades.
Empresas de seguro, advogados, bancos, empresas de serviços ambientais, há uma série de pessoas que planejam formas de ganhar dinheiro sobre o desastre alheio que recai sobre o comum: "É o capitalismo, estúpido!" E não só: é o capitalismo operando em seu tipo mais fundamental, o extrativista, aquele da acumulação primitiva, da acumulação por despossessão, por expropriação, por violência.
A tragédia, oportunidade de acumulação para alguns, pode também ser uma oportunidade de união, de solidariedade, de resistência, de aprendizado e de luta para muitos e muitas. O que a trajetória da mineração fez com Minas Gerais ao longo dos últimos séculos é um desastre. E aqueles mesmos que ganharam com isso hoje já miram novos espaços para ganharem mais, como o Pará.
É para o Pará que a Vale está migrando e em breve vai ganhar mais dinheiro na Amazônia do que em Minas. É para o Pará que migrou a siderurgia de ferro-gusa que estava estabelecida em Minas Gerais, depois que esburacou a terra e transformou em carvão a Mata Atlântica e o Cerrado – e nas últimas décadas transformou também em carvão milhares de hectares da Amazônia, além de ter exportado o sangue de milhares de trabalhadores e trabalhadoras escravizados e escravizadas.
Quem sabe a próxima oportunidade de vampiros de desastres ecológicos, que já sobrevoam Mariana, ganharem dinheiro, será em Parauapebas, centro do projeto Carajás, da Vale. Recentemente, Haroldo Souza, professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), fez uma visita à Barragem Gelado, em Carajás.
Essa é uma das três barragens centrais do Complexo Minerário de Carajás, que inclui também a barragem do Projeto Salobo, que contém ainda mais contaminação, e a Barragem do Sossego, em Canaã dos Carajás, próxima à nascente do Rio Parauapebas.
A água, como em Mariana, é lama, rejeitos de ferro decorrente da lavagem do minério. Em Parauapebas vivem quase 200 mil pessoas (189 mil pelo IBGE em 2015). Se a barragem do Gelado romper, como em Mariana, será uma catástrofe. É difícil de imaginar, muito mais ainda de calcular.
Após o que aconteceu em Mariana, o risco de catástrofe não pode ser minimizado. No caos dessas barragens de mineração que atingem diferentes cidades no sudeste do Pará, todo o plano de controle é feito por agências e órgãos municipais e estaduais sediados em Parauapebas (Prefeitura, Bombeiros, Defesa Civil). A justificativa dessa localização é a logística e o acesso à mina, e não necessariamente a prevenção de uma possível catástrofe.
Acontece que Haroldo Souza, professor curioso, pensou no pior, e perguntou para um engenheiro da Vale durante essa visita o que aconteceria se a barragem rompesse. Teve uma resposta certeira: "Não vai romper!" Souza insistiu: "Mas e se romper?" Ao que o engenheiro retrucou: "Mas não vai romper, foi feita para não romper!" Ignorante do poder da engenharia, mas imaginativo, o professor da Unifesspa insistiu: "Mesmo assim, se romper, o que é que acontece?"
Sem nenhuma planilha na mão, o engenheiro da Vale respondeu: "Não pensemos nisso, é melhor que não aconteça... seria algo muito desastroso pra todos em Parauapebas".
Para a Vale, a BHP, o governo federal, os deputados financiados pelas grandes mineradoras que querem mudar o Código da Mineração, tem coisas que é melhor não pensar – pois pensar demais pode atrapalhar os lucros.
Para aqueles que pensam e que sofrem, como a população de Mariana, como os munduruku, que vivem no Rio Tapajós e querem evitar seu barramento, para os camponeses e camponesas que vivem no sudeste do Pará e são atingidos pela Vale, não há como atribuir um valor de dinheiro para o desastre. Esse valor monetário só é aceito mediante violência.
Como me disse Katia Tonkuré Jonpti, liderança do povo Gavião Akrikatejê, também atingido pela grande mineração de ferro em Carajás: "A Vale deixou conflito. A Vale trouxe o impacto de separação, desunião e desigualdade. É um bicho papão. Um demolidor da natureza, máquina de acabar com tudo".

Mariana: desastres viram chance de ganhar dinheiro sobre o sofrimento

Quem sabe a próxima oportunidade para vampiros de desastres ecológicos será em Parauapebas, centro do projeto Carajás




Quanto vale as vidas abruptamente transformadas, sem a possibilidade de alternativa em decorrência da violência do desastre?

Tragédias ecológicas de proporções catastróficas, logo quando ocorrem, rompem o silêncio da mídia sobre situações de riscos que estavam marginalizadas e dão grande atenção aos espetáculos – sensacionalizando os aspectos macabros.
No caso da cobertura da catástrofe em Mariana, essa atenção da mídia tem sido parcial, baseada em informações prestadas pela Samarco, que se tornou inclusive a "sede" do governo de Minas para uma coletiva de imprensa.
A culpa da catástrofe, um crime socioecológico, tem sido naturalizada, transferida para a natureza, enquanto as responsabilidades de empresas e governos são diluídas em meio ao caos e desespero.
A urgência nas respostas para salvar vidas – humanas e não humanas – logo transforma-se em um emergencialismo. Planos preventivos que deveriam ter sido realizados e não passam a ser cobrados, como agora em Mariana, com decisão judicial para que um plano seja apresentado em cinco dias, ou que seja pago um salário mínimo para as famílias atingidas. Tudo curto e rápido, como panos quentes para aliviar.
Respostas rápidas são necessárias para aliviar o sofrimento imediato. No entanto, podem servir apenas para dar conta de uma pressão inicial do espetáculo do desastre, e deixar para aqueles que são mais atingidos um longo e perene sofrimento.
O desastre industrial que aconteceu em Bhopal, na Índia, em 1984, e Chernobyl, em 1986, não ficaram no passado, produzindo efeitos terríveis da contaminação ao longo do tempo para milhares de pessoas e para o ambiente.
O desastre em Mariana provocado pela mineradora Samarco, da Vale e da australiana BHP, também terá uma longa duração no tempo, seja no ambiente, seja na vida das pessoas. A resiliência, que é a capacidade de reconstrução e recuperação do trauma, pode ser impossível.
Em um relatório de 2011, a ONU afirma: "Não pode haver dúvida alguma de que a redução da vulnerabilidade aos riscos é infinitamente preferível à luta contra o sofrimento humano e as consequências econômicas das crises".
Essa perspectiva tem sido pesquisada com foco na redução dos custos e mensuração técnica e operacional da vulnerabilidade, mais do que em questões de cidadania, qualidade de vida, segurança.
A tragédia em Mariana é social e ambiental, pessoas e meio ambiente foram expostos a um risco absurdo. E no que se refere à vulnerabilidade, que é a exposição ao risco, a suscetibilidade ao impacto, Mariana, palco de um desastre, pode ser um grande alerta para outras situações.
Enquanto ainda se procuram os corpos, surge a questão de quem paga por isso e como esse pagamento é feito.
Pela lei brasileira, a priori, as responsabilidades desse crime socioecológico (que deve ser investigado) recaem sobre a Vale e a BHP em razão do princípio do poluidor-pagador instituído pela Lei nº 6.983 de 1981: "É o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade".
Tal percepção atingiu os investidores dessas duas grandes empresas e as ações da BHP despencaram 7% após a catástrofe. A BHP escreveu em um e-mail ao Wall Street Journalafirmando que não tem nada a ver com a catástrofe e que a Samarco é "inteiramente responsável" e lavou suas mãos na lama.
A Vale também empurrou para a Samarco, igualmente como se não tivesse nada a ver com isso, apenas "apoiando" a empresa, disponibilizando recursos para "auxiliar a Samarco". Um executivo da Votorantim, ex-executivo da Vale, Tito Martins, disse ao Valor que depois de Mariana, "tudo vai ficar mais difícil e mais caro de se fazer no País".
Nessa visão, podem surgir alguns obstáculos a mais para serem superados (ou destruídos), e um pouco de dinheiro a ser pago – que depois pode vir a ser recuperado, por exemplo, com a redução de "custos" de "direitos" trabalhistas.
Acontece que os danos socioecológicos poucas vezes podem ser reduzidos a seu valor monetário. Quanto "Vale" um Rio Doce? Quanto "Vale" as vidas do menino Thiago, da menina Emanuelly, de Valdemir, que deixou esposa e três filhos, das inúmeras pessoas mortas? E quanto "Vale" as vidas abruptamente transformadas, sem a possibilidade de alternativa em decorrência da violência do desastre?
A catástrofe provocada pelas mineradoras Vale e BHP vai gerar muitos conflitos socioecológicos, longos no tempo e no espaço, e como coloca o economista ecológico Joan Martinez Alier: conflitos em torno dos "valores".
Essas empresas e o Estado – seja o governo de Minas ou o federal, ou o Judiciário – vão tentar impor valores de dinheiro para aquelas pessoas cujas perdas, de vidas ou de possibilidades de existência por suas relações com o ambiente, são sentidas muito além do que o dinheiro pode comprar.
E em torno dos valores monetários, o desastre ambiental, para alguns, como o capital da grande mineração, é uma grande oportunidade de acumular. Já para muitos, para os pobres, representam longos anos de muito sofrimento e violência.
Na forma como são feitos hoje – e pelos novos projetos do governo federal, a tendência é piorar –, os estudos de impacto ambiental tentam reduzir tudo a algum valor que o dinheiro pode pagar. Isso significa uma violência tremenda para os mais pobres de dinheiro, e uma vantagem descomunal para o capital na Vale, na BHP, ou mesmo em Belo Monte...
Como essas empresas ricas têm mais dinheiro, podem comprar mais barato a vida e o ambiente dos pobres, protegidas pela violência colonial do Estado. Não há nenhuma outra solução possível para romper esse ciclo, além da básica consulta direta: aqueles afetados devem ser ouvidos, e ao serem consultados de forma informada, devem ter o direito de, livremente, decidir sobre o futuro de suas vidas e sobre o projeto em si.
Ainda assim, essa consulta, elemento fundamental da cidadania que não consta nos relatórios de impacto até agora, apenas poderia garantir o direito de algumas pessoas, já que as futuras gerações e a natureza só podem ser "consultadas", em tese, por algum tipo de representação.
Mineração, agronegócio, barramentos de rios e outros são projetos de "desenvolvimento" autoritário, chamados por autores latino-americanos, como Maristela Svampa, Alberto Acosto, Eduardo Gudynas, de "extrativismos" (ou "neoextrativismo" dentro do quadro populista): algo como uma síndrome de extrair massivamente e mandar para longe e receber um pouco por isso, que fica concentrado em poucas mãos.
Extraem massivamente recursos naturais para exportação, deixando para trás um buraco e um rastro de saque, um ambiente destruído junto de vidas humanas e não humanas.
Essa destruição é motivo para ganho e acumulação, uma oportunidade para expansão e circulação do capital. É difícil imaginar que a Vale ou a BHP vão pagar o que deveriam se os cálculos fossem realmente feitos numa perspectiva ampla de diálogo com todos aqueles e aquelas que foram atingidos e atingidas.
Se os custos não fossem externalizados, colocados para fora, empurrados para os mais fracos ou para o ambiente comum, como o rio. Ambiente comum, ou bem comum, dizem respeito a todos e todas, e não podem ser cercados, privatizados, como tentam as mineradoras.
O ar, as comunidades, os rios, as florestas, são comuns, e não podem se tornar propriedades cercadas pelas mineradoras para transferir para o comum os custos dos desastres provocados por suas atividades.
Empresas de seguro, advogados, bancos, empresas de serviços ambientais, há uma série de pessoas que planejam formas de ganhar dinheiro sobre o desastre alheio que recai sobre o comum: "É o capitalismo, estúpido!" E não só: é o capitalismo operando em seu tipo mais fundamental, o extrativista, aquele da acumulação primitiva, da acumulação por despossessão, por expropriação, por violência.
A tragédia, oportunidade de acumulação para alguns, pode também ser uma oportunidade de união, de solidariedade, de resistência, de aprendizado e de luta para muitos e muitas. O que a trajetória da mineração fez com Minas Gerais ao longo dos últimos séculos é um desastre. E aqueles mesmos que ganharam com isso hoje já miram novos espaços para ganharem mais, como o Pará.
É para o Pará que a Vale está migrando e em breve vai ganhar mais dinheiro na Amazônia do que em Minas. É para o Pará que migrou a siderurgia de ferro-gusa que estava estabelecida em Minas Gerais, depois que esburacou a terra e transformou em carvão a Mata Atlântica e o Cerrado – e nas últimas décadas transformou também em carvão milhares de hectares da Amazônia, além de ter exportado o sangue de milhares de trabalhadores e trabalhadoras escravizados e escravizadas.
Quem sabe a próxima oportunidade de vampiros de desastres ecológicos, que já sobrevoam Mariana, ganharem dinheiro, será em Parauapebas, centro do projeto Carajás, da Vale. Recentemente, Haroldo Souza, professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), fez uma visita à Barragem Gelado, em Carajás.
Essa é uma das três barragens centrais do Complexo Minerário de Carajás, que inclui também a barragem do Projeto Salobo, que contém ainda mais contaminação, e a Barragem do Sossego, em Canaã dos Carajás, próxima à nascente do Rio Parauapebas.
A água, como em Mariana, é lama, rejeitos de ferro decorrente da lavagem do minério. Em Parauapebas vivem quase 200 mil pessoas (189 mil pelo IBGE em 2015). Se a barragem do Gelado romper, como em Mariana, será uma catástrofe. É difícil de imaginar, muito mais ainda de calcular.
Após o que aconteceu em Mariana, o risco de catástrofe não pode ser minimizado. No caos dessas barragens de mineração que atingem diferentes cidades no sudeste do Pará, todo o plano de controle é feito por agências e órgãos municipais e estaduais sediados em Parauapebas (Prefeitura, Bombeiros, Defesa Civil). A justificativa dessa localização é a logística e o acesso à mina, e não necessariamente a prevenção de uma possível catástrofe.
Acontece que Haroldo Souza, professor curioso, pensou no pior, e perguntou para um engenheiro da Vale durante essa visita o que aconteceria se a barragem rompesse. Teve uma resposta certeira: "Não vai romper!" Souza insistiu: "Mas e se romper?" Ao que o engenheiro retrucou: "Mas não vai romper, foi feita para não romper!" Ignorante do poder da engenharia, mas imaginativo, o professor da Unifesspa insistiu: "Mesmo assim, se romper, o que é que acontece?"
Sem nenhuma planilha na mão, o engenheiro da Vale respondeu: "Não pensemos nisso, é melhor que não aconteça... seria algo muito desastroso pra todos em Parauapebas".
Para a Vale, a BHP, o governo federal, os deputados financiados pelas grandes mineradoras que querem mudar o Código da Mineração, tem coisas que é melhor não pensar – pois pensar demais pode atrapalhar os lucros.
Para aqueles que pensam e que sofrem, como a população de Mariana, como os munduruku, que vivem no Rio Tapajós e querem evitar seu barramento, para os camponeses e camponesas que vivem no sudeste do Pará e são atingidos pela Vale, não há como atribuir um valor de dinheiro para o desastre. Esse valor monetário só é aceito mediante violência.
Como me disse Katia Tonkuré Jonpti, liderança do povo Gavião Akrikatejê, também atingido pela grande mineração de ferro em Carajás: "A Vale deixou conflito. A Vale trouxe o impacto de separação, desunião e desigualdade. É um bicho papão. Um demolidor da natureza, máquina de acabar com tudo".



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Samarco poderá ficar fechada até 2019

Uma das controladoras da Samarco, a australiana BHP Billiton, que detém 50% do capital da Joint Venture – os outros 50% são da brasileira Vale – já determinou o custo da crise com atragédia de Mariana, apenas de seu lado, no valor de US$ 1 bilhão. Quem avaliou foram analistas do Deutsche Bank. Esse valor para a BHP seria a conta dos passivos de limpeza do meio ambiente, indenizações a parentes dos mortos e às pessoas atingidas pelo rompimento. Além de todo o prejuízo causado às cidades por onde os resíduos irão chegar.
samarco mariana
Distrito de Bento Rodrigues continua tomado pela lama, enquanto a mineradora está focada no atendimento às pessoas envolvidas no acidente. Foto: Internauta
À Revista Exame, a empresa disse que já enviou representantes da empresa ao Brasil, e segundo o porta-voz, se trata de uma pequena equipe de especialistas em saúde, segurança, meio ambiente e geotecnia que auxiliam no trabalho da Samarco. E, para Paul Young, analista do Deutsche Bank em Sydney, os custos dos trabalhos de limpeza e reconstrução da Samarco em Mariana podem ultrapassar US$ 1 bilhão e a mina local poderá ficar fechada até 2019.
O Deutsche Bank também avalia que a mineradora Samarco só terá condições de operar em 2019. As informações foram publicadas na edição do dia 09, do jornal britânico The Times. “Se eles fossem reiniciar, eles teriam que reconstruir uma barragem de rejeitos e eu acho que para fazer isso o licenciamento levaria mais de um ano”, diz o analista de investimentos do Deutsche Bank, Paul Young, à Bloomberg. “O prédio também levaria mais de um ano.” Ou seja, essa crise não irá acabar com rapidez. Irá durar anos.
E em nota, a Samarco disse apenas que está focada no atendimento às pessoas envolvidas no acidente nas barragens e os valores envolvidos não são a prioridade da empresa neste momento.

domingo, 22 de novembro de 2015

Engenheiro ambiental desabafa: “Estão escondendo o maior desastre ambiental do Brasil. Milhões de pessoas serão afetadas”

Hoje 15/11/2015, meu pai e eu fizemos uma visita ao Rio Doce. No local que fomos (Ponte Queimada) o manancial faz a divisa dos municípios de Pingo D´água (no vídeo digo erroneamente Bom Jesus do Galho). A cena é triste minha gente. A água do rio ainda exala um forte cheiro que não é característico do corpo d’água.
A imprensa não está noticiando corretamente as informações. O número de mortos é muito maior do que o divulgado. E o que pior se (posso falar assim), os elementos poluentes que hoje tomam posse do rio não estão sendo revelados pelos do desastre (samarco e VALE ex-rio doce) que junto com o Governo Estadual e Federal se escondem da população diretamente afetada pelo impacto ambiental.
À medida que o rio doce se dirige ao mar, vai deixando destruição e contaminação por onde passa. Os metais pesados presente nas águas do manancial, que agora é o maior cemitério da biodiversidade lacustre da mata atlântica, irão penetrar na cadeia trófica afetando todos os seus componentes (incluindo o homo sapiens).
Á medida que as água do rio tocarem o mar, se iniciará a inclusão desses metais na cadeia trófica marinha, podendo se estender por milhares de quilômetros da costa brasileira… Do norte ao sul.
Pra quem quiser saber sobre a introdução dos mais pesados na cadeia alimentar digite no google: Desastre de Minamata.

Desabrigados em tragédia fazem manifestação contra Vale e Samarco em Mariana


Um grupo de moradores dos distritos atingidos pelo rompimento de duas barragens em Mariana, na região central de Minas, fez um protesto na manhã desta segunda-feira (9) na porta do Fórum do município. Eles cobram a definição de um plano para que as famílias que perderam suas casas sejam ressarcidas.
Os manifestantes, que contaram com apoio de estudantes da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) e do Sindicato Metabase, que representa os operários da região, afirmam que as mineradoras Samarco e a Vale (uma das controladoras da empresa) foram negligentes em relação aos riscos que as barragens de Fundão e Santarém ofereciam à população e que o rompimento delas foi uma "tragédia anunciada".
— Não foi acidente, foi um crime ambiental. É um descaso com a população, a gente exige justiça. Que os danos materiais sejam reparados, pois o que o povo perdeu de mais importante não tem como ser recuperado.